sábado, 3 de março de 2012

Aprendendo a suportar as dores

O leão infernal não deixa de andar em redor de nós durante toda a nossa vida, para nos devorar, e por isso S. Pedro diz que devemos nos armar contra os seus assaltos com o pensamento da paixão de Cristo: "Havendo Cristo padecido na carne, armai-vos também do mesmo pensamento (1 Pd.4,1). S. Tomás afirma que só a lembrança da paixão é um forte anteparo contra as tentações do inferno. E S. Ambrósio, ou outro santo, escreve: Se o Senhor conhecesse uma outra via para a salvação, melhor que a do sofrimento, ele no-la teria feito conhecer: indo, porém, à frente com a cruz às costas, nos demonstrou que não há meio mais próprio para nos procurar a salvação que o sofrer com a paciência e resignação e por isso quis ele mesmo dar-nos o exemplo na sua pessoa.
Diz S. Bernardo que nós, contemplando as grandes aflições do Crucificado, acharemos mais suportáveis as nossas. E em outro lugar: Que coisa te parecerá dura, se te recordares dos sofrimentos de teu Senhor? Tendo S. Delfina perguntado um dia ao seu marido S. Elzeário como podia suportar tantas injúrias com tão grande tranquilidade, respondeu-lhe este: Quando me vejo injuriado, penso nas injúrias que meu Salvador crucificado e não ponho de lado tal pensamento enquanto não me sinto apaziguado. A ignomínia da cruz é agradável àquele que não é ingrato ao Crucificado, diz S. Bernardo. Todas as almas que querem ser gratas a Jesus Cristo não detestam, mas se aprazem nos desprezos que recebem. Quem não receberá com prazer os opróbrios e os maus tratos, considerando somente os maus tratos que sofreu Jesus no começo de sua paixão, quando na casa de Caifás foi esbofeteado e pisado, e lhe escarraram no rosto, zombando dele como de um falso profeta, vendando os olhos com um pano, segundo o testemunho de S. Mateus? (Mt.26,27).
E como era possível os mártires sofrerem com tanta paciência os tormentos dos carnífices? Eram dilacerados com ferros, eram queimados nas grelhas: talvez não eram de carne ou perdiam os sentidos? não, mas eles não se punham a contemplar as suas feridas, mas as chagas do Redentor e assim pouco sentiam as próprias dores. Os tormentos não deixavam de os martirizar, mas eles os desprezavam por amor a Jesus Cristo. "Não há dor tão atroz que não seja suportável à vista de Jesus Crucificado.

terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

Aceitem toda a sorte de Cruzes

Caros Amigos da Cruz, decidi-vos a carregar toda a espécie de cruzes, sem fazer exceções ou escolhas: pobreza, injustiças, fracassos, doenças, humilhações, contradições, calúnias, aridez, discriminações, solidão, sofrimentos interiores e exteriores... e dizei sempre: "O meu coração, ó Deus, está firme, o meu coração está firme". Estai, pois, preparados a serdes abandonados pelos homens e pelos anjos, como se fosse o próprio Deus a por-vos de lado; estai preparados a serdes perseguidos, caluniados, destituídos e colocados de lado, por todos; a sofrer fome, sede, mendicidade, nudez, exílio, prisão, o patíbulo e toda a espécie de suplícios, ainda que não os tenhais merecido pelos crimes que vos atribuem.
E como se tudo isso não bastasse, imaginai que, depois de terdes perdido todos os bens e a própria honra, depois de serdes expulsos da vossa própria casa - como aconteceu com à rainha Isabel da Hungria - vos joguem ainda na lama, como aconteceu a essa santa, e vos arrastem para cima de uma estrumeira, como a jó "que era uma lepra maligna, desde a planta dos pés até ao alto da cabeça" e tudo isso sem que vos deem nem ligaduras para apertar as chagas nem um naco de pão para comer -coisas que não se recusariam a um cavalo ou a um cão; imaginai ainda que, além de sofrerdes todas essas provações, Deus vos deixe ainda prisioneiros de todas as tentações diabólicas, sem derramar na vossa alma nem sequer a mais leve consolação sensível.
Pois bem, crede firmemente que reside aqui o ponto supremo da glória de Deus e a felicidade perfeita a deve aspirar o autêntico e verdadeiro Amigo da Cruz.

S. Luis de Montfort (Carta aos amigos da Cruz)

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

O amor pelo escravo

A história narra-nos um caso de um amor tão prodigioso que será a admiração de todos os séculos. Havia um rei, senhor de muitos reinos, que tinha um único filho, tão belo, tão santo, tão amável, que, sendo o encanto de seu pai, este o amava como a si mesmo. Ora, este príncipe se afeiçoou grandemente a um escravo e tendo este cometido um delito, pelo qual fora condenado à morte, o príncipe se ofereceu a morrer por ele. O pai, amante apaixonado da justiça, resolveu condenar o seu amado filho à morte, para livrar o escravo do castigo merecido. E assim aconteceu: o filho morreu justiçado e o escravo ficou livre.
Este caso, que uma só vez se deu e nunca mais se repetirá no mundo, está consignado nos santos evangelhos, onde se lê que o Filho de Deus, o Senhor do universo, vendo o homem condenado à morte eterna por causa do pecado, quis tomar a natureza humana e pagar com sua morte e pena devida pelo homem. "Foi oferecido porque ele mesmo o quis (Is.53,7)". E o Eterno Pai o fez morrer na cruz para nos salvar a nós, míseros pecadores. "Não poupou seu próprio Filho, mas o entregou por todos nós" Que vos parece alma cristã, este amor do Filho e do Pai?
Amado redentor meu, quiseste então com vossa morte sacrificar-vos para obter-me o perdão. E que vos darei em reconhecimento? Muito me obrigastes a amar-vos, muito ingrato serei se não vos amar com todo o meu coração. Vós me destes vossa vida divina; eu, mísero pecador, vos consagro a minha vida. Ao menos a vida que resta quero empregá-la exclusivamente em amar-vos, obedecer-vos e dar-vos gosto.